Vamos então falar da parte prática do combate às dividas e do início de um plano de independência financeira.

Primeiro passo: listar num caderninho, planilha ou software tudo o que você gasta no seu dia-a-dia. Tudo mesmo. Não esqueça o cafezinho, chicletinho, gorjeta ou esmola. Este controle é muito importante pois te dará um quadro geral de seus gastos diários. Isto deve ser feito pelo menos por 3 meses. Como já contei antes, por ter problemas sérios de autocontrole, faço isso desde maio de 2008 até hoje. Eu sei, é chato, mas não tem jeito, tem que ser feito.

Segundo passo: levantar todas as despesas mensais fixas, aluguel, condomínio, contas de água, luz, telefone, internet, celular, escola, e outros. Neste grupo coloque todas as despesas fixas e obrigatórias. Pode colocar também as prestações de financiamento de carro e casa e até outras dívidas fixas, como as de CDC e empréstimo pessoal.

Terceiro passo e mais doloroso: levantar as chamadas dívidas ruins: cartão de crédito, cheque especial, dívidas com financeiras e agiotas. Descubra seu montante total e taxa de juros de cada uma. Corte cartões de crédito, ou pelo menos, não ande com eles na bolsa. Tente negociar com bancos um parcelamento destas dívidas e as pague o quanto antes.

Quarto passo: construa uma planilha de orçamento pessoal. Coloque no início todas as suas rendas, de preferência àquelas garantidas, ou se for autônomo, faça uma média de suas receitas do ano anterior e coloque como renda certa apenas aquele valor mínimo que você sempre recebeu. Embaixo, coloque seus gastos fixos, depois os variáveis, que você descobriu a partir da anotação dos gatos do primeiro passo, e em seguida, ponha as dívidas ruins.

Eu comecei com uma planilha que vinha com o livro Saia do Vermelho, que era  bem completa, dava para fazer o controle diário e mensal. Depois, uma vez por ano, fazia o consolidado anual com outra planilha.

Hoje, utilizo o Ms Money que é um software bem completo que consegue fazer todos os controles e ainda constrói gráficos e relatórios. Já usei também o do Finance Desktop, que é nacional e gratuito e funciona muito bem.

Mãos à obra.

Algumas pessoas me perguntam como consegui mudar minha vida financeira. Eu mesma, às vezes, não acredito que realmente consegui.

Na verdade, para todos que têm dívidas, não há caminho fácil e rápido. É sempre trabalhoso e difícil, pois envolve mudanças de hábito profundas.

Infelizmente neste caso, não há soluções mágicas. Nem mesmo rápidas.

Os livros que li no início foram importantes pois me deram um objetivo claro, um plano de metas. Antes eu não tinha isso. Achava que era impossível e pronto. Culpava o mundo, os capitalistas, os EUA, só não entendia que a maior responsável era eu mesma.

Com eles, naquelas viagens, comecei a ver que a solução era clara. Tão clara que às vezes não vemos.

Simplesmente precisamos gastar menos ou ganhar mais. É matemática elementar.

 Não há outro caminho.

Um dia, num livro, percebi que minha vida poderia ser diferente. Que eu poderia ser livre e ter sonhos.

Para mim, que estava com nome no SPC e devia um ano de salário ao banco, parecia  impossível.

Num livro vi um gráfico, para quem entende de matemática perceberia que se tratava de um gráfico de função exponencial. Ele relacionava dinheiro e tempo, traduzindo um conceito simples, o de que, com muito tempo e com pouco dinheiro, qualquer pessoa poderia acumular 1 milhão de reais.

Êpa? Como assim?

1 milhão?!

Pois é.

É claro que depois o livro explicava que você teria de ter certo rendimento na aplicação dos recursos ( 1% ao mês, pelo menos, o que por si só já era, e ainda é, bem difícil), e deveria considerar a inflação do período, que não seria nada desprezível. Mas mesmo assim, o que foi muito impressionante e, por isso mesmo, transformador, foi a mera existência da possibilidade.

Meus pais eram de esquerda, lutaram contra a ditadura militar e sempre me disseram que era impossível ser rico por meio do trabalho honesto. Riqueza era para os capitalistas que, ou nasciam ricos, ou,depois de anos explorando os trabalhadores, se tornavam abastados de maneira torpe.

Na época, dezembro de 2002,  morava em Santos e trabalhava em São Paulo. Ia e voltava todos os dias. Acordava às 5:00 e voltava às 20:00, exausta. Ia de ônibus fretado e para passar o tempo na viagem, comecei a levar livros para ler. Um dia, peguei este livro que estava num canto de minha estante, Investimentos do Mauro Halfeld. 

Lembro que me sentia presa num trabalho e num tipo de vida que odiava por causa das dívidas e de meus diversos compromissos financeiros. Trabalhava tanto apenas para pagar aos outros, nada sobrava para mim mesma, nem mesmo para pequenos agrados. Me sentia como no mito de Sísifo, subindo minha enorme pedra durante todo o dia apenas para vê-la deslizar novamente e ter que subí-la no dia seguinte e no outro e no outro, num tormento sem fim.

Assim, naquele gráfico eu enxerguei pela primeira vez uma saída e adquiri um sonho, não de iates, jatinhos ou jóias mas sim de liberdade.

 

Falo muito de dívidas e da dificuldade de fazer o salário durar o mês inteiro. De como é difícil ver que o pagamento mal caiu e já foi engolido pelos juros, taxas e limites e que não há mais nada para passar o mês. Situação muito comum e muito aflitiva.

Porém existe outro quadro bastante corriqueiro e bem menos desesperador que pouco discuto, a do empate. O empate ocorre quando a renda total empata com as despesas, ou seja, a pessoa não deve nada, não entra no cheque especial, não tem dívidas no cartão, porém também não poupa nada pois não há sobras.

 

Roseli Braga, de 37 anos é assim. Não tem dívidas ruins, está quitando seu apartamento financiado mas não possui investimentos. Disse que desde que me conheceu anda refletindo sobre suas finanças pessoais e não sabe como fazer sobrar dinheiro ao final do mês.

O problema justamente é esse, esperar até o final do mês. Se fizermos isso provavelmente, não sobrará. Sempre surgirão situações que nos levarão a gastar se houver saldo na sua conta. As tentações são muitas e é difícil resistir.

Eu pago ao meu futuro, primeiro. Como tenho problemas de autocontrole e preciso de planilhas, sei exatamente quanto vou precisar para passar o mês e pagar minhas despesas.  Sendo assim, tudo o que passar deste valor poderá ser investido. Mas isto tem que ser feito no dia do pagamento, ou seja, assim que recebo, já faço a transferência deste excedente para a corretora em que faço meus investimentos. Bem longe de minha conta corrente e de meus gastos diários.

A porcentagem varia mas procuro guardar pelo menos 10% de meus rendimentos e faço isto todos os meses. Você pode começar com 2, 5% e ir aumentando aos poucos. Ao mesmo tempo, procure conhecer as modalidades de investimento existentes para ir amadurecendo melhor seu plano para o futuro.

 

 

O mercado imobiliário brasileiro passa por um boom sem precedentes, talvez comparável apenas ao milagre econômico do início da década de 70. Há uma  enorme carência de moradias em nosso país e 9 em 10 brasileiros acalenta o sonho da casa própria. Assim, o Brasil se tornou um terreno fértil para a expansão dos financiamentos imobiliários, incentivos às construtoras e incorporadoras e multipicação de prédios em construção nas grandes cidades.

Dentre os principais incentivos, está  o programa  Minha Casa  Minha Vida voltado para a população de menor poder aquisitivo, com menores taxas de juros e prazos de financiamentos mais longos.

Ótimo, não?

Bem, o problema maior disso tudo é que estamos falando da maior dívida que uma pessoa assume ao longo de sua vida. E no frigir dos ovos não houve grande diminuição da taxa de juros. Houve sim um importante aumento do prazo de financiamento, até 30 anos,  menor burocracia na hora de contratar um empréstimo e quase não se exige entrada. Mais ou menos como um financiamento de automóvel. O que significa que TODO O MUNDO a minha volta está comprando apartamento e o pior, na planta.

Outra coisa que me aflige é que os preços estão subindo vertiginosamente. Há 5 anos com R$ 200.000,00 se comprava um bom apartamento na região central de São Paulo. Hoje, o mesmo apartamento, não sai por menos de R$ 500.000,00, também, é claro, na planta.

Imagine uma pessoa de baixo salário, com 30% de seu salário empatado num empréstimo de 30 anos, morando num minúsculo apartamento. Pagando 2, 3 apartamemtos ao final do financiamento. E às vezes o apartamento nem está construído, é um pedaço de nuvem. Um pedaço de nuvem caro que ninguém garante que irá se valorizar o suficiente para compensar o alto valor dos juros.

Para mim, está mais para pesadelo que para sonho.

Pessoas com problemas com autocontrole, como eu, precisam de orçamentos, planilhas e muito planejamento.  Ou seja, não dá para viver no piloto automático. Não dá para viver ao sabor do vento, comprando e gastando sem pensar nem refletir sobre o assunto. Se eu fizer isso simplesmente entro de novo na roda viva das dívidas. E isso, nunca mais.

Tratar compulsão por compras é parecido com o tratamento para álcool e drogas, só que não dá para deixar de gastar completamente. O ato de gastar é necessário para a subsistência de qualquer pessoa, precisamos comer, vestir, pagar as contas da casa, os impostos. No tratamento para álcool e drogas as pessoas ficam dias, meses sem beber, ou se drogar, mas não podemos ficar dias ou meses sem gastar nada. Então como podemos controlar o impulso de comprar?

Num primeiro momento é necessário abrir mão de cartões de crédito, cheque especial ou qualquer forma de crédito. É preciso ter apenas um cartão de débito simples e uma programação de gastos bem rígida até que se paguem todas as chamadas dívidas ruins. Comigo foi assim por uns 2 anos, até que. após ter pago quase todas, senti que poderia ter os cartões e os limites de volta. Alguns meses depois esteva de novo com o nome no SPC.

As recaídas fazem parte de qualquer tratamento para compulsão e comigo não foi diferente. Só que eu já tinha toda a informação sobre finanças pessoais, dívidas e investimentos, o que me deixou muito deprimida. Sabia  que eu tinha que fazer um orçamento e começar a poupar. Sabia que estava perdendo oportunidades ótimas de investimento e não conseguia. Fiquei muito mal.

 

Conheço algumas pessoas assim. Gostam de finanças pessoais, querem ter um plano de enriquecimento mas não conseguem colocá-lo em prática. Ou por estarem afundadas em dívidas, ou por não conseguirem boa renda, ou por não suportarem a rotina de um emprego maçante.

Já passei por estas 3 situações e posso afirmar com segurança, que se eu consegui, qualquer um consegue. Sério. Só é preciso tempo e paciência, muita paciência.

Para mim, levou 8 anos.

 

 

Sou investidora em ações desde 2008 e entrei direto no meio da maior crise do mercado em muitos anos, a do subprime americano. Era interessante lembrar como todos a minha volta diziam que não se devia entrar naquele momento pois talvez estivéssemos diante de um ciclo de baixa severa, uma nova grande depressão e que talvez, como na década de 30, o mercado e as bolsas levariam 10 anos para se recuperarem. Sério, ouvi isto de um economista em um programa de tv.

Mas por acompanhar o mercado como observadora há 8 anos, desde que, ao buscar ajuda para resolver um problema com dívidas, descobri o mundo dos investimentos e das finanças pessoais, comecei a pensar por mim mesma no que eu tinha de informações. Tinha lido muitos livros e feito cursos mas ainda não tinha comprado ações.

Assim sendo, decidi não esperar e comprei minhas primeiras ações. E deu muito certo. No ano seguinte tive boa valorização, 70%, e me senti muito bem. Mas da mesma forma que o pessimismo de 2008 era exagerado a euforia do final de 2009 também era. Minha intuição me disse para vender as ações e realizar os lucros mas lembrei dos meus objetivos de longo prazo e fiquei quieta.

Agora, em maio de 2010, as ações despencaram e continuo quieta, não tenho ordens de stop nem hedge para vender assim que os preços caiam muito. Não. Estou aproveitando para comprar de novo a preços ótimos. Mas devo admitir que a sensação de pânico também me acomete, tenho vontade de vender e ir para a segurança da renda fixa, mas me controlo. As emoções me inundam, sim, sinto o clima tenso, fico chateada com as quedas mas não cedo á tentação. Penso nos meus objetivos e fico firme. Isto não é simples mas com um pouco de paciência dá para fazer.

 

O problema de se curar de uma compulsão por compras é que normalmente você é levada para o outro extremo. O da pão-duragem explícita. Não consigo mais comprar, por prazer, coisas inúteis. Tenho que sempre comprar coisas que estou precisando,  com desconto e preços ótimos se não, nada feito.

Hoje fui a uma loja de departamentos e comprei 4 peças de roupa que realmente estava precisando e mesmo assim me sinto terrivelmente culpada. Meio mal mesmo.

Não gosto disso, mas fazer o quê.

 

Terminei hoje de ler Complexo de Sabotagem. O livro, indicado pela Ção que fez um comentário aqui no blog, foi escrito no final da década de 90 por Colette Dowling.  Não tinha em nenhuma livraria que frequento e estava esgotado na editora .  Acabei encontrando-o, num golpe de sorte, na livraria  virtual da Saraiva.

 

A autora escreveu um best-seller na década de 80 chamado Complexo de Cinderela. Falava basicamente sobre a dificuldade das mulheres em controlarem suas próprias vidas e sempre esperarem um príncipe para a salvarem.  Neste livro o tema é bem parecido, porém focado no controle do dinheiro e na indepedência financeira.

A própria Colette conta como, por não saber como administrar suas finanças,  nem controlar sua compulsão por compras, perdeu todo o dinheiro que ganhou com seu livro de sucesso.  Inclusive os 2 imóveis que comprou e até sua mobília,  por conta de dívidas com a Receita Federal americana.

A idéia básica do livro é que se deve lutar para construir uma carreira,  aprender a administrar seu próprio dinheiro e evitar ao máximo delegar este manejo a outrem. Sem lidar com as próprias finanças não é possível ser verdadeiramente livre e independente

Apesar de ser ás vezes muito junguiana nas análises psicológicas das mulheres que menciona, o que irrita um pouco, é um livro importante pois traz um enfoque diferente ao tema mulheres e dinheiro que de tão real, incomoda.

Recomendo.

Assim como para emagrecer, não há solução mágica para o problema das dívidas. É preciso disciplina, determinação e muita paciência. O primeiro passo e um dos mais dolorosos é conhecer o tamanho e a variedade do monstro. É preciso destrinchar extratos, faturas, contratos e saber quanto se deve em cada um dos emprétimos feitos as vezes ao longo de uma vida inteira de gastança descontrolada.

Isto é tão difícil e doloroso que faz com que as pessoas fiquem paralisadas de medo e nunca comecem um programa efetivo de redução de débitos. Muitos procastinam, ou seja deixam para outro dia e nunca se deparam realmente com seu problema em toda a sua plenitude.

Só que sem saber quanto se deve e para quem e a que taxa de juros, não é possível começar a enfrentar a criatura e ficamos presos num presente terrível em que não são possíveis planos nem sonhos.

Comece sempre pela dívida mais cara e vá listando uma a uma até chegar ao montante final. No Brasil, normalmente, o cartão de crédito e o cheque especial são as modalidades de crédito mais caras, o primeiro com uma taxa de juros de 10 a 12 % ao mês, isto mesmo ao mês, e o segundo de 8 a 12%.

Depois vêm os empréstimos pessoais, cdc, crédito consignado e os financiamentos de carro e de imóveis.

Liste tudo, calcule a taxa de juros e veja quantas parcelas faltam. Se tiver dúvidas ligue para a instituição e obtenha as informações que você precisa.

Encare o monstro de frente para que então você possa enfrentá-lo . 

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